ICARO LIRA:

FRENTE DE TRABALHO

GABRIEL BOGOSSIAN



“Frente de trabalho” foi o nome dado, em diferentes contextos e épocas, a políticas públicas que abordavam o problema da força de trabalho ociosa no Brasil. Instrumento utilizado com frequência para combater o desemprego e os efeitos da seca, a organização de tais frentes previa a mobilização de trabalhadores para atuar de maneira temporária a serviço do Estado ao mesmo tempo em que, em alguns casos, participavam de programas de qualificação profissional.

Sem seca ou Estado, a mobilização que se vê em Frente de trabalho, de Ícaro Lira, é de outra ordem. Anunciado desde a entrada como local de produção, o espaço expositivo é ocupado com um conjunto de obras realizadas a partir de documentos e objetos acumulados pelo exercício coletor que é base das operações poéticas de Lira. Como nos textos canteiros de obras de Francis Ponge, onde a matéria poética é constituída pelas diversas tentativas de elaborá-la, busca-se aqui, lançando mão de diferentes recursos, produzir uma reflexão em torno do trabalho e do trabalhar – gesto tão cotidiano quanto universal –, sem ignorar questões relativas ao trabalho artístico e seu lugar no sistema que o sustenta e explora.

Um desses recursos se destaca pela regularidade com que serve à composição do conjunto de obras na exposição e, mais além, à prática artística de Lira: a apropriação de conteúdos históricos como matéria-prima poética, que impõe um gesto seletivo e reinterpretativo sobre um magma de documentos, objetos e publicações, como se fosse preciso organizar não só o pessimismo diante da história, mas os escombros do progresso aos pés do anjo. A aproximação produzida entre materiais de diferentes períodos resulta em uma espécie de contra-história do trabalho, onde trabalhadores de épocas e ofícios distintos são postos em perspectiva e é possível notar analogias, recorrências e repetições, não só entre momentos diferentes do passado, mas entre estes e nosso presente.

Postos lado a lado, os registros fotográficos realizados pelo modernismo paulistano, a produção de artistas contemporâneos e itens de memorabilia da ditadura civil-militar de 64 compõem um panorama a partir do qual contemplamos eventos que permanecem geralmente à sombra da memória e da história. Aí, como nas frentes de trabalho referidas no título, é possível ouvir um amplo coro de vozes. A obra, então, conforma-se como um relatório de uma pesquisa em processo; ao se pensar como lugar de emergência do passado, funciona como porta para os conteúdos que, do lodo dos nossos recalques históricos, retornam.

E se o recurso à história busca também elaborar um lugar para o trabalho de arte diante de um pacto social violento e traumático, como o brasileiro, que não deixa de marcar nossas narrativas culturais, este processo não se dá exclusivamente no isolamento do estúdio ou dos arquivos em que se pesquisa, mas em diálogo com outros processos produtivos e outros atores sociais. Em Frente de trabalho ganha relevo o trabalho coletivo, que, para além da panorâmica histórica e das citações nominais a outros artistas e autores – Juraci Dórea, Traplev e Stefan Zweig, entre outros, presentes na forma de publicações –, é visível nos fragmentos da história do trabalhismo, nos documentos provenientes de arquivos e coleções variados e nos processos de composição e reaproveitamento dos objetos concebidos pelo design vernacular em diversas profissões. A soma de braços e esforços presente na pesca, na construção, no preparo da goma de tapioca ou do couro, na pedreira, nos carregadores de piano, na ocupação do antigo hotel Cambridge e no trabalho de arte serve ao mesmo tempo como objeto de investigação e método poético. Como em um mutirão, é a valorização da dimensão coletiva e dialógica do trabalho que dá sentido à obra e à perspectiva que ela instaura.

Por último, cabe mencionar a presença de certa herança cinematográfica, evidente na maneira de estruturar as composições e articulá-las em uma sequência. Considerados em conjunto, os elementos constituintes de Frente de trabalho parecem organizados pelo olhar de um diretor-artista, cuja subjetiva decupa em planos a posição dos objetos no espaço, se aproximando em zoom de alguns ou dispondo outros em profundidade, como elementos de um longo plano sequência. Como se reinventasse o processo de edição de um filme, desmembrando e espacializando sua matéria prima, Lira modula diferentes pontos de vista e épocas e produz uma mescla singular entre poesia e história. Do seu interior, corpos reduzidos a ‘carne de trabalho’ e autores às margens do cânone falam novamente, emergindo do anonimato ou do esquecimento para afirmar uma vez mais sua singularidade e sua presença entre nós.

Abril, 2018



Gabriel Bogossian (Rio de Janeiro, 1983) é curador e editor independente. Foi curador adjunto da Associação Cultural Videobrasil (2016-2020) e da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil / Comunidades imaginadas. Foi curador também das exposições Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno, Amanhã vai ficar tudo bem – Akram Zaatari e Cruzeiro do Sul, entre outras.