ICARO LIRA:

ROAD

SOFIA CAESAR, ÍCARO LIRA,
LUCAS SAGENTELLI, BRUNO JACOMINO



Plano de viagem.
Armadilha para cidades, viajar entre vazios.


O projeto, edição da residência artística móvel “Road”, partiu do interesse comum em vivenciar o deslocamento medido por distâncias entre cidades e realizado em grupo. O estar ‘a caminho de’, se afastando do cotidiano em uma super-convivência, foi entendido como lugar de experiências transformadoras. Estar entre pontos seria buscar uma “consciência concreta, presente, viva, do deslocamento (...) e da mudança de posicionamento e ponto de vista que esse deslocamento permite.”¹ A viagem teria o caráter de intercâmbio entre os quatro artistas com formações diversas nos campos das artes visuais, música, dança e cinema. Durante os 45 dias de viagem, tínhamos como objetivo cumprir o longo percurso de 7.500 km com um jipe toyota bandeirantes, realizando um rasante sobre vasta porção do território nacional, tendo um primeiro encontro com populações nativas e paisagens diversas, além de buscar estabelecer contato com redes de artistas locais.

O traçado no mapa foi realizado a partir de sítios que sofrem fortemente as consequências de um fluxo que se dá entre concentração e esvaziamento. Lugares (em sua maioria cidades pequenas ou vilas) que convivem com fantasmas de si mesmos, que marcadamente passam ou tenham passado por processos migratórios, o êxodo, o despovoamento, algumas frutos de sonhos que nunca se realizaram, outras por falhas em seu próprio projeto, outras ainda pelo fim de grandes ciclos econômicos. A escolha por lugares com essas características resultou da vontade de lidar com as inúmeras sobreposições de um rico passado histórico e cultural, se configurando a partir de uma livre associação de cidades. A escolha por cidades pequenas resultou da vontade de explorar vias mais desconhecidas, em um movimento de busca do que se convencionou chamar de “cidades do interior”. Realizamos uma investigação pelos espaços vazios encontrados nestas cidades, ligando-os ao rápido deslocamento realizado, assim como ao intercâmbio das pesquisas pessoais entre os quatro participantes.

Saindo da cidade do Rio de Janeiro, passamos pela estação de trem abandonada de Augusto Pestana/MG, que durante muito tempo fez parte de um movimentado circuito de cargas e que hoje esta em vias de se extinguir junto com a cidade. Visitamos também o bairro Jardim Canadá em Nova Lima/MG, que possui um dos primeiros condomínios residenciais do país, e que hoje é alvo de grande especulação imobiliária. Por entre inúmeros terrenos baldios de um loteamento realizado nos anos 50, encontra-se grande diversidade de usos e serviços, entre eles o centro de arte Ja.Ca, que vem atuando com projetos ligados aos moradores do bairro e arredores. Atravessamos Minas Gerais visitando Biribiri, cidade dentro de uma reserva ambiental, desenvolvida ao redor da fabrica de tecidos Estamparia SA, que por motivos econômicos deixou a região levando a antiga cidade, agora vazia, a viver do turismo. As casas podem ser alugadas por temporadas e em datas comemorativas ficam lotadas.

Entramos na Bahia pela Chapada Diamantina com parada em Igatu, cidade do ciclo do diamante nos séculos 18 e 19, que hoje tem cerca de 400 habitantes e que já teve 9.000. De lá fomos para Canudos, cidade fundada por Antônio Conselheiro que já foi completamente destruída e reconstruída duas vezes, a primeira vez pela guerra e a outra pela construção de um grande açude na região. Cortamos Pernambuco para chegar a tempo para a Romaria do Padre Cícero em Juazeiro do Norte, seguindo para Jaguaribara, uma das cidades inundadas para a construção de grandes açudes no Ceará. Em fortaleza inicia-se uma segunda etapa da viagem, formada pela proximidade geográfica de dois empreendimentos separados por quase um século de diferença: a corrente construção da usina hidrelétrica de Belomonte em Altamira, Pará, e a cidade Fordlândia, construída por Henry Ford em 1927 as margens do Rio Tapajós, nossa última parada.

No Crato/CE realizamos a oficina Prática para desvios: percursos de escutapara a comunidade local em parceria com o Sesc Juazeiro e com a ONG BEATOS trazendo alguns dos resultados da residência. A oficina associou uma caminhada de observação pela cidade e a experimentação sonora e tátil de objetos encontrados pelo caminho com a realização de desenhos de mapas dos percursos. Também utilizamos dispositivos como vendas e protetores auriculares para provocar uma caminhada sensorial. A idéia era pesquisar junto com o grupo olhares e sensações sobre um rápido deslocamento. No mesmo dia, a noite, apresentamos os resultados da oficina no Sesc Juazeiro, relacionando a oficina a uma fala aberta sobre a experiência da viagem. No Centro Cultural do BNB em fortaleza/CE, ocupamos o espaço expositivo por uma semana, compartilhando materiais produzidos durante o processo da viagem (cadernos de viagem, vídeos, fotos, desenhos, objetos, etc) e apresentando trabalhos produzidos especialmente para a ocasião.


Novembro 2012