ICARO LIRA:

ROMARIA

PAULA BORGHI


Crato, 8 de novembro de 2012.

Conheci Ícaro Lira no dia primeiro de junho. Estávamos em Buenos Aires, convivendo na mesma residência artística, La Ene. Neste mesmo dia saímos a percorrer a cidade em bicicleta, não fazia calor e tampouco frio. Assim se passou um mês, quase sempre na companhia um do outro e de nossas respectivas bicicletas, nos perdendo e nos achando em meio às "calles" argentinas. Eu mostrava a Ícaro uma Buenos Aires e ele, logo em seguida, me fazia ver um outro lugar naquele mesmo e vice-versa. Não era a nossa primeira vez na cidade, mas a primeira vez juntos. E foi a partir dessa vontade de re/ conhecer um mesmo espaço pelo olhar do outro, que o desejo de continuar "na estrada" seguiu latente entre nós.

Nos inscrevemos na mostra SESC Cariri de Cultura com um projeto de fazermos uma romaria em bicicleta saindo de Fortaleza e chegando a Juazeiro no dia de finados. Infelizmente não pude iniciar a romaria com Ícaro, que no dia 22 de outubro saiu de Fortaleza e percorreu 350 km em bicicleta no período de quatro dias. Nos encontramos em Orós, ponto de partida donde seguimos viagem juntos. De Orós à Juazeiro foram sete dias de romaria, trabalho e convivência. Pedalávamos uma média de 35 km por dia, o que é pouco em número e demasiado se formos "contar" o calor. Naquele momento, completavam mais de dois meses sem chuva e o jornal anunciava a maior seca dos últimos 30 anos.

Passamos por algumas cidades e muitos vilarejos, em uma jornada carregada de lindas paisagens em contraste com um "cinza fim de mundo". A escassez de água se fazia protagonista a cada metro. Muitas queimadas por combustão espontânea e dezenas de gados mortos na beira da estrada; além de muitos que em carne e osso lutavam para se sustentar em pé. Os únicos que pareciam estar felizes eram os urubus, que em bandos dominavam o céu azul sem nuvens. Havia muitas placas com indicação de rios, mas só era possível encontrar uma terra seca, craquelada e sedenta por chuva.  

Foram sete dias de trabalho físico e mental: pedalando, empurrando a bicicleta, fotografando, coletando objetos, filmando, compartilhando pensamentos, pedindo água e recebendo ajuda de desconhecidos. Uma semana regada de histórias e pessoas que cruzaram nossas vidas. Eliane foi a primeira a nos dar água, Luís Helder do Sítio Chaparrau me deixou banhar em seu lago, Autanir da Cachoeira dos Pintos - vilarejo que só leva queda d'água no nome - nos deu de beber e sombra fresca, assim como Écio, Adão, Fabiana etc... Nunca tivemos uma ajuda negada, pelo contrário, o acolhimento foi genuíno.

Muitos olhares curiosos nos saudaram na estrada. Caminhões, carros, "paus de araras" e motos prendiam nossa tenção; havia que estar atento e tomar cuidado. Quando o cheiro de carniça se espalhava com o vento, logo o estômago embrulhava. Era certo que adiante iríamos encontrar o cadáver de um boi. Quase não havia animais atropelados na beira da estrada, eles morriam muito antes de sede. Um senhor nos perguntou de onde vínhamos. Quando respondemos, ele nos disse que éramos muito corajosos. Na verdade, ele é quem é corajoso por viver e cultivar vida em condições de tanta dificuldade. Este senhor, assim como muitas pessoas que cruzamos são os verdadeiros heróis do sertão.

Quando paramos na casa de Dona Preta - uma senhora de 68 anos, com alguns filhos e muitos netos - ela não só nos deu de beber, como também ofereceu comida e abriu as portas de sua casa. Em questão de minutos nos sentíamos em casa escutando os "causos da novela real" da família de Dona Preta. Depois de cinco dias voltei à sua casa para convidá-la para a exposição. Ela, assim como todos que cruzaram nossos caminhos fazem parte desta mostra, desta romaria.

"Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem", título que toma emprestado o nome da canção de Ednardo, busca dividir com o espectador um pouco do que foi e está sendo esta viagem. Trata-se de uma exposição que visa compartilhar a intimidade do artista em um ambiente acolhido pelo aconchego de um quarto. Fotografias, vídeos, mapas, objetos pessoais, cadernos e livros estão dispostos sem moldura ou barreira. Pelo contrário, a exposição "pede" ao espectador que manipule tudo "sem dedos", de corpo inteiro. É desta forma que se apresenta uma vivência e não a tradução de uma experiência. Pois não se trata de uma exposição finalizada, e sim de um processo vivo. Aqui os trabalhos estão em vida: numa experiência que se prolonga.



Paula Borghi (São Paulo, 1986) mestranda em Artes Visuais na linha de pesquisa de História e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRJ. Foi curadora adjunta da 11# Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2018), curadora convidada do Centro Cultural Hellerau no Projeto Brasil (Dresden, Alemanha, 2016), assistente curatorial de Ibis Habascal na 12# Bienal de La Havana (Cuba, 2015) e curadora da Residência Artística do Red Bull Station (São Paulo, 20013-2015). Foi co-idealizadora do espaço independente Saracura (Rio de Janeiro, 2016-2018) e idealizadora da biblioteca itinerante de publicações de artistas latinos Projecto MULTIPLO (2011-2017), premiado pelo Rumos Itaú Cultural em 2015-2016. Nos anos de 2015 e 2016 trabalhou com o Instituto Goethe no projeto Jogos do Sul, que teve como objeto de pesquisa os I Jogos Mundiais Indígenas, Palmas. Ao longo de sua trajetória vem atuando com processos curatorias voltados a residências artísticas e exercícios de práticas democráticas.